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” Quem vidistis Pastores? ” de Estêvão Lopes Morago

Luís C. F. Henriques, musicólogo e director do Ensemble da Sé de Angra

www.luiscfhenriques.com

 

 
Estêvão Lopes Morago nasceu em Vallecas (nos arredores de Madrid) por volta de 1575. Desde pelo menos 1592, estudou no Colégio dos Moços do Coro, anexo à Sé de Évora, onde teve como mestre Filipe de Magalhães. Aí recebeu o grau de bacharel a 3 de Março de 1596. A 15 de Agosto de 1599 foi nomeado mestre de capela da Sé de Viseu, muito provavelmente por recomendação do novo bispo desta catedral que haverá sido cónego na Sé de Évora. Morago era já sacerdote e licenciado a 27 de Setembro de 1605, data em que o Bispo de Viseu o instituiu no benefício de S. Pedro da Cota, ao qual foi adicionado uma meia-conezia na Sé a 14 de Janeiro de 1608. Após 25 anos como mestre de capela, pede licença de um mês ao Cabido para se deslocar a Lisboa, com o intuito de ver a alguma da sua obra impressa. Tal não se veio a concretizar, tendo regressado a Viseu onde provavelmente supervisionou a cópia de dois manuscritos, um dos quais ostenta a data de 15 de Agosto de 1628. Continuou ocupando o posto de mestre de capela na catedral até Abril de 1630. Nesse ano, numa cópia do Officium defunctorum de Filipe de Magalhães, Morago assina este manuscrito como frade menor, possivelmente por se ter retirado para o convento franciscano de Orgens, nos arredores de Viseu.
 
O ofício de matinas para o dia de Natal divide-se em três nocturnos, compostos musicalmente por antífonas (3 no início de cada nocturno) e oito responsórios (3+3+2). Quem vidistis Pastores? é o terceiro responsório destas matinas, fechando o primeiro nocturno, daí a inclusão do Gloria Patri…, doxologia que aparece no último responsório de de cada nocturno. Morago é um dos raros exemplos de compositores cuja obra sobreviveu até à actualidade que em Portugal puseram em polifonia estes 8 responsórios, sendo os restantes Pedro de Cristo e Duarte Lobo (este último com uma colecção a 4 e outra a 8 vozes). Estruturalmente, este responsório é composto por 4 secções: a inicial (i), o repetendum (r) (também conhecido vulgarmente por presa) o versiculum (v) e a doxologia (d), estabelecendo-se uma série de repetições, ordenando-se desta forma: i-r-v-r-d-r. Em termos de textura, Morago opta nos 8 responsórios por uma alternância entre 4 e 3 vozes. Neste caso o início e o versiculum são para 3 vozes (SAT) as restantes secções são para 4 vozes. A utilização do ritmo ternário neste responsório dá-lhe um carácter de leveza permitindo também a utilização de alguns recursos expressivos com grande eficácia.
 
O responsório possui o seguinte texto: (i) Quem vidistis Pastores? Dicite, dicite anuntiate nobis in terris quis apparuit. (r) Natum vidimus, vidimus et choros Angelorum collaudantes Dominum.(v) Dicite, quidnam vidistis? Et annuntiate Christi nativitatem. (d) Gloria Patri, et Filio, et Spiritui Sancto. ((i) Quem vistes, Pastores? Dizei-nos, anunciai-nos, quem apareceu sobre a terra? (r) Vimos o recém-nascido e os coros dos Anjos a louvar o Senhor. (v) Dizei, quem vistes? E anunciai o nascimento de Cristo. (d) Glória ao Pai e ao Filho e ao Espírito Santo.) Este texto é por natureza um diálogo, propício à utilização de secções homofónicas. Morago fá-lo de forma muito eficaz utilizando uma textura de três vozes (as mais agudas: SAT) nas duas perguntas, feitas no início e no versículum, às quais respondem as quatro, numa espécie de coro dos pastores, no repetendum. A homofonia predomina em praticamente todo o responsório – um recurso eficaz para criar dinâmica no diálogo presente no texto – apenas esboçando ténuamente algum contraponto no Gloria Patri… que, em termos textuais, está desligado das secções anteriores.

 

 

Referências
HENRIQUES, Luís (ed.). Estêvão Lopes Morago: Responsórios de Natal. Lisboa: Edições mpmp, 2012.
JOAQUIM, Manuel. Estêvão Lopes Morago: Obras de Música Religiosa «A Capella», Portugaliae Musica, Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1953.
STEVENSON, Robert. “Morago, Estêvão Lopes” www.oxfordmusiconline.com (acedido 06-12-2013).

 

 

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