Não seria encontrado

on Janeiro 15 | in CULTURA E ARTE | by | with Comentários fechados em Não seria encontrado

Margarida Fonseca Santos

“Considera esta carta o fim. Não tentes encontrar-me. O nosso mundo acabou, sabes disso. Seremos, a partir de hoje, memórias. Somos, desde aquele dia, apenas desconhecidos. Podes decidir esquecer as memórias. Não sou capaz. Espero que me entendas. Perdoa-me. Até sempre.”
Benedita pousou o papel e procurou o lenço. As lágrimas não lhe facilitavam a tarefa, nem os pensamentos. Baralhavam-se memórias, instantes, dúvidas e remorsos. Obstinada, teve a certeza de que a sua partida era o caminho.
A chuva não a incomodou. Nem sequer lhe atrasou o andar decidido. Seguiu o trajeto conhecido. Enterrou os passos na areia quando a praia se mostrou como destino.
Diz, quem a viu de longe, que nunca parou. Caminhou para as vagas com a decisão de terminar o que já se acabara. Nem o frio, nem o mar revolto a dissuadir o desfecho. O plano para cumprir. O corpo, sabia, não iria ser encontrado.
A verdade chegou a António antes da carta. O mulherio em alvoroço, os homens em luta com a força do mar. Uma força decidida a cumprir os desejos de Benedita. Só a noite os fez desistir. António sabia que morrera o tempo de Benedita.
A sós com o silêncio da casa onde já não sabia morar, António leu a carta. Curta, seca, determinante. Pôde imaginar os passos dados de encontro ao fim. Reviu as conversas por começar, os abraços por arriscar, as culpas sulcadas no tempo, as mágoas mal-escondidas, as promessas por cumprir. Entendeu-lhe as razões. Compreendeu o fim.
Entrou no pequeno quarto onde tudo expirara. Um berço por usar. A morte arrancara-lhes o filho antes de o conhecerem. Uma cadeira de baloiço imóvel. Um tempo parado. Histórias por ler ao sabor do balanço, canções por entoar na sabedoria do carinho. Uma cómoda incomodada pelo desuso, cheia de roupas sem dono, cheia de recordações por construir. Uma roca esquecida.
Fechou a porta, abriu uma mochila. Levou consigo apenas a roca. Embalou as memórias. Voltaria a elas? Talvez não. Saiu na direção contrária ao mar. Os olhos secos por nada mais poderem vencer.
Diz, quem o viu ao longe, que seguiu a estrada do deserto. Caminhou para o infinito com a decisão de apagar o que sobrara. Nem a agrura do vento, nem o mar de dunas a dissuadir outro fim. O plano o plano para cumprir. O corpo não iria ser encontrado.

Ilustração por: Luís Cardoso

Pin It

related posts

« »