Esperar por ti

on Fevereiro 15 | in Destaque HP, OPINIÃO | by | with Comentários fechados em Esperar por ti

Espero por ti no cais. Não chegas, não vais chegar. O futuro que planeámos nunca existiu. Ou houve algo que te impediu de te juntares a mim, naquele dia? Não vou saber.

Desisti de ti, mas não da espera. Alimento-me de sopas de pobres e de palavras inventadas por outros. Entram em mim para preencherem o vazio que deixaste. Espero. De onde estou, vejo a praça de táxis que me deste como referência. Não achei que viesses num destes carros, ou estou enganado? Imaginei-te a fazer uma entrada de mulher fatal, saindo de um deles com sapatos de salto alto e roupa de moda. Não aconteceu, isso só existe em livros e filmes.

Retomo a leitura e apercebo-me de que as letras se soltam. Saem de um texto organizado para se reconstruírem para mim, num significado que não domino. Contudo, esforço-me, esforço-me muito, para lá do que pensava possível. Eis que chegas, saindo com saltos altos e roupa de marca, não de um táxi, mas de uma memória que construí de tanto te esperar. Chegas.

Entendo: a cena é construída por mim, embora as letras que a escrevem não sejam minhas. Embarco na experiência, como um plagiador. Estou consciente da falta, da inexistência de um tu. Mas embarco com prazer. Vejo-te agora distintamente. Desdenhas do meu aspecto. Ou será apenas da minha tentativa de te criar? Não importa. Estou bem assim.

Travo-te as frases secas e escrevo-te de novo. Sendo eu o dono das palavras, não admito que me afogues em desdém. Reinvento-te. Chegas no dia certo, à hora combinada. Vens a pé, sempre te quis imaginar-te vindo a pé. Recebo-te com o sorriso que sabia produzir sem esforço.

Tu mudas. Emprestas-me a tua amizade e muito mais. Queres partir comigo. O cais é só a primeira paragem. Queres que sejamos um par, unidos numa existência que nos transcende. Recupero-te.

No instante em que penso que estou a ser tolo, atiro para longe as letras dos outros. Retomo a espera. Na paragem dos táxis, nada. Nada? Não, tudo.

Estás ali, esperas que reaja. Que dia é hoje? Não sei. Importa? Talvez não. Tu atravessas o cais e pegas nas minhas mãos e na minha vida. Levas-me contigo. Para onde, não sei. Só sei que não importa. Chegaste.

Margarida Fonseca Santos

Ilustração por: Luís Cardoso

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