Desta vez

on Dezembro 9 | in Destaque HP, PESSOAS | by | with Comentários fechados em Desta vez

Olhou-se de relance no espelho, para confirmar a ansiedade e o cabelo em desalinho. Não adiantava tentar domá-lo com os dedos. Sempre fora uma tarefa impossível. Respirou fundo, ajeitou a blusa. Apertava-lhe não só o corpo roliço como o coração. Entrou.

Henrique já a esperava. O mesmo ar apático de sempre. Isso irritou Teresa. Cumprimentou a advogada com um sorriso forçado e sentou-se. Já na cabeça de Henrique, tudo se passava de forma bem diferente. Relembrava a conversa que ditara o fim de tudo. Poderia ter discordado, mas isso iria eternizar um casamento disfuncional. Também poderia ter confessado que a segurança da rotina o deixava sereno, mas talvez a mulher nunca lho perdoasse. A essa ideia, Teresa somaria queixas de falta de atenção, vício de jogos de computador e ambição profissional inexistente.

Os papéis foram assinados à velocidade das pressas. A da advogada, que chegara atrasada e precisava de fazer a leitura de um testamento a uma família abastada. A de Henrique, que detestava aquelas burocracias destruidoras de anos de vida em comum, como se de um contrato de venda se tratasse. E a de Teresa, que sonhava com uma página nova na sua vida diária, onde pudesse recomeçar tudo.

Acabaram com apertos de mão e olhares distantes. Saíram em direções opostas. Pelo menos, assim pensavam.

– Que me dizes disto? – perguntou a alma penada, perseguindo-os desde o primeiro beijo. – Pareceu-me fácil demais.

– És capaz de ter razão – concordou o diabo, torcendo o nariz ao desfecho. – Alguma sugestão?

– Apetecia-me juntá-los de novo, para sofrerem ainda um pouco. O Henrique nem se apercebe do bem que lhe irá fazer a separação. Nunca entendeu como sofreu nas mãos daquela idiota.

– Tento na língua – corrigiu o diabo, faiscando a condizer. – A Teresa pode ser feia, desmazelada e sonhadora, mas de idiota nada tem.

A alma penada assentiu com um suspiro. Retirava o idiota. Contudo, o tempo urgia. Eles caminhavam a passos largos para mundos diferentes.

– Se me permites a sugestão…

– Claro, claro – apressou-se a alma penada a incitar, já que as ideias lhe fugiam.

– Estás a ver aquele carro de assaltantes? Os do banco?

– Mas para esses não tínhamos previsto serem apanhados pela bófia?

– Mudamos de plano. Repara…

Um telefonema surpreendeu Henrique. Por andar devagar, não se afastara tanto como Teresa da porta da conservatória. Atendeu e olhou para o relógio. Hesitou uma desculpa esfarrapada e inverteu a rota. O pagamento em falta seria depositado já de seguida. Fora um esquecimento horrendo.

O diabo e a alma penada riam-se do passo, agora apressado. Teresa, passando pela agência bancária, vacilou e acabou por entrar. As contas separadas tinham-lhe facilitado a vida e, naquele instante, podia contar com tudo o que amealhara só para si. Não mais voltaria a salvar Henrique de embaraços por falta de liquidez.

Teresa não viu que o agora ex-marido entrara minutos depois. A fila era grande, pois o dia do descasamento coincidira com o do pagamento das pensões. Também não viu, por distração, entrar a pandilha que, sem hesitar um segundo que fosse, desatou aos tiros por todo o lado.

Quis o diabo, pois a alma penada nesses casos pouco podia adiantar, que a confusão desse azo a fugas de clientes, tiros certeiros e confusões desmedidas. Quis igualmente o diabo que, depois de horas e horas de negociação com um chefe da polícia, se instalasse o desespero dos assaltantes e a execução de reféns. O polícia negociador nada tinha em comum com as séries de televisão americanas, faltava-lhe o jeito e o vocabulário manipulador. Teresa e Henrique jaziam entre as vítimas.

Só quando os dois ex-casados chegaram ao outro mundo, a alma penada pôde então fazer o gosto ao dedo. Juntou-os num patamar límbico: a sua especialidade. Deixou-os a braços com a coexistência. Ali estavam, numa casa pronta a assombrar, pronta a estrear. Fora um dos planos de morada do casal, quando ainda o eram.

Ninguém sabe como acaba esta história. Sabe-se apenas que, a três nuvens de distância, um anjo resgatador de almas em sofrimento terá de escolher um para levar para o paraíso. Mas a escolha não é fácil. Henrique, com aquela apatia e falta de ambição, pouco fez para o merecer. Teresa, por seu lado, há muito que precisava de ter levado uns berros.

Neste impasse, o diabo quis trocar as voltas ao anjo. A alma penada encarnou, pois chegara a sua hora. Por fim, o diabo desinteressou-se da história, pois o anjo era demasiado competente. Pode ser que a coisa corra bem… desta vez.

Margarida Fonseca Santos

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