A colina

on Março 15 | in CULTURA E ARTE, Destaque HP | by | with Comentários fechados em A colina

Joaquim olhou a colina que o vira nascer, crescer e sorrir. Era agora um ponto elevado numa paisagem que não reconhecia. O lago das suas manhãs desaparecera. Não existia, nem reflectia o céu. Dera lugar a um enorme abismo, repleto de cadáveres de peixes e plantas desmaiadas. Para onde fora a água, isso não sabia.

Um sobressalto fê-lo procurar o rio, mas apenas para descobrir o que o coração já lhe dissera. Não era mais do que um sulco escavado a custo, seco e sem propósito.
Os passos atraiçoam-no, deixando-o a cambalear feito marinheiro por entre as pedras. Ir até à horta seria o passo seguinte, mas não se sentia preparado para a ver. Encontraria uma vida inteira desaparecida naquele instante. Tinham-lhe dito que era um trabalho inútil, nunca lhes dera ouvidos. Acreditava agora.
Não lhe ocorreu procurar alguém. Cumpria-se ali o que a Terra já ameaçara. Não tinha medo da morte. Só receava as horas que o levariam até ela. Sentou-se. As gretas abriam a terra como nos filmes, pensou. No entanto, não era ficção. Era verdade.
Um pássaro veio morrer-lhe aos pés. Agarrou-lhe e ofereceu-lhe um conforto tão inútil como toda a sua vida.
Quando descobriram Joaquim, nada havia a fazer. Nas suas mãos, repousava o coração, embora não se pudesse entender como. A horta murchara, acompanhando-o. E a colina, recebendo o ondular hesitante do lago, escondeu-lhes a verdade.

Margarida Fonseca Santos
Ilustração por: Ana Félix

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